domingo, 5 de janeiro de 2014

Encruzilhadas

0 comentários
 
Julio, na companhia de sua avó Catarina, testemunha um fenômeno raro com a velha senhora: ela começa a tremer e ficar toda arrepiada. Percebendo o semblante preocupado do neto, Catarina decide contar-lhe um pequeno segredo do mundo. O motivo do arrepio é porque eles haviam passado por uma "encruzilhada" que, segundo ela, são locais místicos em que os caminhos dos que já morreram se entrecruzam com os que ainda estão vivos. Julio iria lembrar daquela informação inequívoca no futuro. Marcelo Santoro estreia no CONTOS DE LIFFAN apresentando um texto envolvente, de fluência  fácil, e mantendo a narrativa num clima crescente de suspense até o seu final. 


Autor: MARCELO SANTORO 


     Algo aconteceu dentro do corpo da velha e o resultado para quem estava do lado de fora foi como se um pé de vento gelado houvesse atravessado o automóvel de um lado a outro. O garoto percebeu e, a despeito da idade, achou aquilo estranho. No mínimo gozado.

      — O que houve, vovó?

      Catarina fitou o rosto rosado do menino sentindo a corrente elétrica que trespassara seu corpo diminuir até esgotar por completo. Pousou de leve a mão manchada por sobre a pequenina do neto e disse com suavidade:

      — Nada. Não houve nadinha mesmo.

      — Você tremeu como se estivesse com frio. Ainda está arrepiada, olha aqui. - Apontou o braço da avó e sorriu encarando aqueles montículos que haviam se formado quase por vontade própria em toda a pele dela.

      Do lado de fora do carro, lojas, árvores e pessoas se misturavam imitando borrões coloridos numa pintura à óleo. O banco de trás do Aero Willys era grande e inteiriço, igualzinho ao dianteiro. Na frente, o pai e mãe do menino estavam entretidos demais tentando chegar a algum tipo de conclusão conjunta sobre o que fazer no próximo final de semana. Catarina estreitou o menino com o braço esquerdo e trouxe-o para junto de si, era quase um abraço. Abaixou a voz ainda mais, que passou a fluir como um sussurro.

      — Vovó não está com frio. Não foi isso. O dia está bonito demais para sentirmos frio, não está?

      — Bonito demais. - O garoto repetiu. O sol faiscava sobre a pintura branca do carro e fazia brilhar o interior charmoso forrado de vermelho. Não se fazem mais carros como este.

      — Pois então, por isso não sinto frio algum.

      — Hummm...

      A resposta não havia satisfeito o garoto e ele continuou encarando a avó, aguardando uma conclusão menos duvidosa que talvez nem existisse. Na idade dele ainda não era possível saber, contudo todos passam por isso de vez em quando. Uma sensação estranha que trespassa nosso corpo e faz com que fiquemos apreensivos sem motivo algum. Alguns dizem que quando isto acontece é por que estão falando de nós em algum canto. Ou alguém acabou de pisar sobre nossa sepultura. Na maioria das vezes não passa disso: uma sensação estranha que vai embora no segundo posterior. A diferença é que com Catarina a coisa não funcionava assim, era um pouco diferente.

      — Vem cá, olha por aqui. - O garoto foi para junto da janela do Aero Willys. A janela do carro do lado da avó. - Vê a esquina lá atrás?

      — Com toda aquela gente e a padaria?

      — Aquela mesma.

      — O que tem ela?

      — Passa um bocado de gente por ali. Um monte de carros também. É um lugar danado de movimentado. Conte rápido: quantas ruas têm ali?

      — Quatro. Cinco com aquela mais adiante. - O garoto exclamou rápido. A conversa continuava a fluir como uma brisa leve. Apenas entre os dois.

      — Pois eu te afirmo que existem mais do que cinco ruas naquela esquina. Muito mais do que cinco ruas. Contudo, algumas delas apenas eu posso contar. Os outros não as enxergam. É como se vovó possuísse um óculos especial que a tornasse capaz de ver coisas especiais, invisíveis aos olhos de quem não está usando óculos como os meus.

      A expressão no rosto do neto denunciou o que ele imaginava naquela hora e era algo mais ou menos como - espero não enlouquecer quando ficar mais velho, assim como minha pobre vó -. Catarina percebeu, mas não se abalou. Na realidade achou engraçado.

      — E saiba que vovó ainda não está com parafusos a menos. Não mesmo. Lembra do formigueiro que existe no jardim de sua mãe, onde ela tem aquelas Rosas e o coqueirinho que nunca deu cocos? Lembra de como você gosta de vê-las trabalhando, carregando insetos mortos, folhas cortadas e outro tanto de coisas?

      — Sim. Mas...

      — O que isto tem a ver, esta seria a sua pergunta. Muita coisa, vovó responde. Você as observa trabalhando, mas as pequeninas nem se dão conta disso. Não sabem que meu neto as observa enquanto elas vão de lá para acolá fazendo todo aquele trabalho. Mas você está bem ali ao lado delas, todo o tempo. Acho que é mais ou menos isso. Existem coisas por aí, coisas que apenas algumas pessoas são capazes de enxergar e não me pergunte por quê. Não saberia responder. Alguns chamam aquela esquina de encruzilhada. É onde o mundo dos que já se foram toca o mundo dos que ainda estão por aqui. Um lugar onde muitas e muitas estradas invisíveis se cruzam e onde coisas podem acontecer. Muitas delas inexplicáveis. Elas estão por toda a parte, as encruzilhadas.  Nem sempre nas esquinas de ruas próximas, mas dentro de casas, automóveis, no mar ou na floresta. Não consigo deixar de me arrepiar quando enxergo uma delas.

      — Tenho medo.

      — Não tenha. Não há motivo. Vovó garante que não há motivo para que você tenha medo de coisa alguma. Estamos todos bem inteirinhos aqui e nada vai acontecer. Nada nunca aconteceu.

      — Vovô estava ali naquela esquina?

      — Não. Ele não estava. Não desta vez.

      O garoto pôs-se de joelhos no banco do Aero Willys tentando fitar a esquina que se distanciava velozmente pela janela traseira. Já se tornara impossível de ser enxergada, mas a magia daquela conversa não permitia que ele desgrudasse os olhos do vidro do carro. Não falou mais coisa alguma e Catarina calou-se também. Depois que se sentou novamente no banco ela o estreitou com um abraço e fez cafuné em seus cabelos finos até que chegassem à casa. Julio ainda não sabia, mas aquela conversa seria lembrada em algum ponto de sua existência, num futuro ainda longínquo, entretanto inequívoco. E Julio também não tinha conhecimento de duas pequenas mentiras que sua vó Catarina havia lhe contado, talvez com o intuito de protegê-lo: coisas já haviam acontecido e existiam motivos para ter medo.

 

I

      O garoto estava chorando de novo. Qualquer mudança é aborrecida, mas esta parece ter mexido com os nervos de todos os três de maneira estranhamente peculiar. Mais ainda com o estado de espírito do pequenino Guilherme. Abria o berreiro pela terceira noite consecutiva, coisa que já não fazia desde quando completara dois anos. A luz do abajur faiscou na cabeceira oposta, trazendo incômodo aos olhos de Julio. Murmurou entre dentes:

      — Sua vez.

      — Ontem fui eu. Hoje é a sua vez.

      Resignou-se e foi até o quarto ao lado arrastando pés. Ainda se confundia com o apartamento novo, era cedo para se acostumar a caminhar por ele no escuro. Estavam ali há apenas três dias. Passou-se um tempo antes de Julio retornar trazendo nos braços o garoto, que soluçava em pequenos arrancos. Não chorava mais. Depositou Guilherme num colchão ao lado da cama de casal e o menino voltou a dormir logo após.

      — E então?

      — A mesma história.

      Leila coçou a cabeça desgrenhada. Apagou o abajur enquanto o marido punha-se novamente sob o lençol.

      — Acha que ele precisa de um médico?

      — Não, não acho. Definitivamente: não. - A voz do homem um tom acima do desejado. Quase ríspido. As pilastras que sustentavam a harmonia do casal pareciam ruir, algum tipo de ferrugem muito corrosivo agia sorrateiramente e arruinava a estrutura antes sólida. Há quanto tempo isso acontecia? - tentou imaginar Julio. Há três dias. Isso vinha acontecendo há três dias, ele mesmo respondeu dentro da cabeça.

      — Meus Deus, Julio, o garoto chora há três noites seguidas. Não se faça de sonso, você sabe que ele dormia muito bem.

      — A mudança. Ele ainda não se acostumou com o novo ambiente. É apenas a droga da mudança. - Quase berrou. Temeu acordar novamente o filho, coisa que não aconteceu.

      — E quanto às histórias? Ele jamais foi de inventar histórias estapafúrdias ou de temer fantasmas. Talvez um médico...

      — Nada de médicos. - Deixou a esposa com o final da frase engasgada na garganta. - O guri vai melhorar.

      — Não gosto de ver meu próprio filho dizendo que alguém o visita durante a noite e o acorda. Não gosto de saber que ele não consegue dormir por temer os – visitantes -. Odeio isso tudo.

      — Não mais do que eu.

      — Ele está com medo, Julio.

      — É a mudança. A maldita mudança, você entende? Ele vai melhorar, vai acostumar com a casa nova e tudo vai voltar a ser como era.

      Leila virou para o outro lado e terminou a conversa.  Julio teve a nítida impressão de que ela tentava abafar um pranto baixinho. Ele sabia que havia algo errado. Alguma coisa terrivelmente errada estava acontecendo e chegava perto da família, imitava um crocodilo que se aproxima da presa completamente invisível sob água barrenta. Guilherme chorava sem escaramuças quando estava assustado. Mas o casal também estava e nenhum dos dois tinha a mínima idéia do porquê.

 

II

      — O garoto melhorou? Parece que continua a chorar durante a noite, não é?

      Aquele sujeito sempre estava ali no corredor quando Julio abria a porta do apartamento para fazer o que quer que seja. Neste caso, levava o lixo para fora e lá estava o velho, completamente calvo e com sua barriga que imitava um Papai Noel desgrenhado. A esposa dele, uma velha desdentada, sempre prostrada sob o umbral da porta que se mantinha semi-aberta. Observava enquanto apertava as mãos nervosamente, como quem faz uma mágica que nunca termina. Parecia ter nervos bastante abalados. O velho, por sua vez, sorria.

      Julio Neves entrou no recuo da lixeira e despejou sacos de plástico três andares lá para baixo. Escutou o baque surdo quando eles chegaram a seu destino. Não estava com humor para conversa fiada com vizinhos desconhecidos e as idéias eram desgovernadas dentro da cabeça. Mal completara uma semana da mudança e já se arrependera amargamente da decisão. Na verdade, nem mesmo recordava por que maldito motivo havia mudado para aquela redondeza e isso o intrigava. A presença do casal desocupado naquele instante o incomodava sem qualquer motivo especial, contudo profundamente. Respondeu tentando ser lacônico:

      — Ele continua a chorar, sim. Espero que isso não os perturbe. Sinto muito de verdade.

      — Não - o velho prosseguiu animado - não incomoda de jeito nenhum. Sabe como é, velhos dormem pouco. Não temos muito sono. Nada por aqui nos incomoda.

      — Eu sei como é. E fico agradecido pela gentileza. - Julio deu as costas, caminhado em direção ao próprio apartamento. Adoraria se a conversa terminasse por aqui. Além do mais, não era cedo. Passavam das onze horas.

      — Assim que o garoto acostumar com a mudança ele pára com a choradeira, não é isso mesmo? Não tivemos filhos, mas sabemos como são as coisas. Eu e minha Clara sabemos muito bem como são as coisas. - Julio lembrou da conversa que mantivera com Leila há alguns dias atrás. Naquele instante algo parece ter acontecido, entretanto, Julio sabia que não. Nada acontecera, ele apenas travava uma conversa tola com um vizinho ocioso. Clara, a esposa do homem careca, aquiesceu com um movimento da cabeça que imitava uma reverência numa missa. As mãos continuavam se enroscando como duas cobras que lutam.

      — Pois bem, nós sabemos como é. Garotos são assim mesmo, não são como nós, os adultos e os velhos.

      — Não são. - Julio repetiu.

      — Não se preocupe conosco, dormimos pouco e nada nos incomoda. Acho que já disse isso, não disse? É claro que disse, sim Senhor. E estamos bem aqui do lado para ajudar no quer que seja. Vizinhos servem pra isso, eu acho.— Obrigado, não vou esquecer. - Julio aguardou que o velho fizesse meia volta, fosse ao encontro da velha esposa e entrassem em casa. Não foi o que aconteceu. Ambos ficaram de pé onde estavam e prosseguiram fitando Julio Neves. Foi ele quem teve que entrar em seu apartamento. Bateu a porta por trás das costas sem olhar para trás. Não testou pelo olho mágico, mas juraria de pés juntos que ambos continuavam de pé no corredor.

 

III

      — Eles estavam lá?

      — Como sempre. Ambos.

      Encararam-se durante muito tempo. Não falavam nada, mas os olhos conversavam angústia. A irritação dos primeiros dias depois da mudança abria espaço para um poço de aflição que não permitia mais a exasperação. Estavam juntos em algo que não compreendiam e um time acuado sempre se une. É assim que a coisa funciona e eles não precisavam entender ou conversar sobre isso.

      — Jogou o lixo fora? - O lixo não importava, Leila simplesmente não sabia o que dizer. Julio estreitou a mão da mulher e foi quase um carinho. Não respondeu.

      — O garoto precisa dormir. Já passam das onze horas - disse o marido.

      — Sim. É tarde. - Ela concordou.

      — Ele ainda está no videogame?

      — Na sala. Jogando.Ainda ficaram de pé na cozinha e não saberiam responder por quanto tempo. Apenas um defronte ao outro. Olhos marejados e cabeças confusas. Foram juntos até a sala e Julio disse quando chegou lá:

      — Amanhã tem mais. Por hoje precisamos dormir, não é garotão?

      Guilherme soltou o joystick mecanicamente e encarou os pais. O brilho baço dos olhos passou da indiferença ao medo muito rápido. Mas o garoto não falou nada, caminhou em direção ao quarto com os pais marchando logo atrás em fila indiana. Enfiou-se por baixo das cobertas obedecendo a uma ordem que não precisou ser dada.

      — Até amanhã. Durma bem, meu filho. - Disse Julio. Guilherme não respondeu. Apenas cerrou os olhos e aguardou o casal apagar a luz e sair do quarto. Quando chegaram ao quarto ao lado encaram-se novamente. Novamente aquela conversa travada com a íris, em silêncio. Sabiam que o filho não dormiria bem. Tinham absoluta certeza quanto a isso. Nunca falaram nada, mas reconheciam odiosamente que ofereciam o garoto quase como num sacrifício. Uma oferenda a algum tipo de Deus ou demônio desconhecido e isso os enchia de rancor, entretanto o medo era sempre maior. Não acontecia nada, ele apenas acordaria chorando e então Julio o traria para dormir junto deles e assim evitavam que aquela coisa que visitava o garoto nessas noites estranhas viesse importuná-los pavorosamente. Uma covardia que acontecia e não precisava ser assumida.

      — O que está havendo? Por Deus, Julio, o que está acontecendo conosco?

Enfurnaram-se debaixo dos lençóis. Quase choravam. E de novo Julio não precisou responder.

 

IV

      Naquela noite, depois de Julio colocar o garoto para dormir ao lado do casal, nenhum dos dois conseguiu pegar no sono e ficaram lado a lado, porém acordados. Nunca a coisa acontecera daquela maneira. O som de passos no quarto ao lado sugeria pelo menos uma pequena multidão caminhando por ali. Era impossível discernir o que se falava, mas as vozes estavam lá também. Algumas tão graves como urros de dor, outras imitavam assobios leves ao vento da tarde.  Alguns sussurros tocavam de leve o casal, como confissões feitas ao pé do ouvido. A mão do homem procurou a de Leila e estreitaram-se num aperto por baixo da coberta. A porta do quarto estremeceu e quase abriu. A maçaneta girou uma ou duas vezes. Continuou fechada e parou de tremer. Tremeu novamente. A mão de Julio suava e o suor misturava com o da esposa. Não era mais medo. Era outra coisa. Alguma outra coisa completamente diferente e inexplicável. Diferente e terrível.

      — Há quantos dias você não vai trabalhar?Era uma pergunta desconexa e estranha, contudo Julio não a interpretou dessa forma. Fazia muito sentido e ele não sabia por quê.

      — Não lembro. Acho que faz tempo.

      — Guilherme dormiu?

      — Sim. Ele dormiu.

      Leila estremeceu e então perguntou:

      — Eles vão embora agora, não vão?  Eles sempre nos deixam em paz depois que ele dorme, meu Deus. Por que não vão embora? - Ela gritou para o teto no escuro do quarto. A pergunta não foi feita a Julio. - Por que não nos deixam em paz para sempre? - Ela berrou novamente.

       — Por que estamos aqui? - Indagou Julio. - Por que viemos morar nesse lugar?

      — Não lembro.

      — Eu tenho que ir lá, não tenho? Preciso ir até lá, não é isso? Preciso ir até o quarto de nosso filho agora. Não é?

      — Mas se você for até lá, promete que vai retornar?Ele não respondeu. O ruído era insuportável agora. Passos, bramidos de dor e aflição. A porta do quarto deles chacoalhava de leve.

      — São assombrações. Fantasmas. Eles estão atrás de nós desde que chegamos aqui. Todos eles! São fantasmas e querem nos machucar. Demônios! - A mulher urrou novamente.

      — Ambos sabemos que tenho que ir até lá. - Julio Neves desvencilhou-se do aperto que aquecia sua mão e pôs-se de pé. - De uma vez por todas, precisamos passar por isso.

Deu às costas para Leila, agarrou a maçaneta que ainda rangia, torceu-a e saiu do quarto, batendo a porta a sua passagem. Tudo se aquietou e o silêncio reinou novamente.

 

V

      Leila não parecia calma. Ela mesma não saberia avaliar o próprio estado. Não compreendia nada mais com isenção e equilíbrio. O vizinho careca a fitava com olhos brilhantes, sorrindo como um esquizofrênico. Ao lado, Clara trançava as mãos como quem embaralha cartas invisíveis e parecia triste. Era dona de um olhar que perdera algo e algo muito importante. Talvez a vida. Julio Neves sussurrava imitando um padre numa igreja vazia, tentando explicar algo que até então era completamente ininteligível aos ouvidos da esposa. Ao lado dele, bem junto ao braço direito do marido, uma jovem que disse se chamar Catarina fitava diretamente os olhos de Leila. O quarto do casal estava escuro e frio. Como nunca antes.

      — Alguns chamam aquele quarto de encruzilhada. É onde o mundo dos que já se foram toca o mundo dos que ainda estão por aqui. Um lugar onde muitas e muitas estradas invisíveis se cruzam e onde coisas podem acontecer. Muitas delas inexplicáveis. Elas estão por toda a parte, as encruzilhadas.  Nem sempre nos quartos das crianças, mas dentro de casas, automóveis, no mar ou na floresta. - Depois que Julio Neves completou a frase, a jovem Catarina, a seu lado, concordou com um movimento do queixo. Leila ainda não compreendia coisa alguma. O vizinho careca completou:

      — Estamos aqui apenas para ajudar, compreende? Vizinhos servem para isso, eu acho. Eu e minha Clara sabemos como são as coisas, de verdade. Não sabemos, querida?

      Clara respondeu sem abrir a boca. Os olhos mortos e ausentes, as mãos entretidas na interminável batalha maníaca.

      — Uma encruzilhada. É onde estamos, entende, mulher bonita? - O vizinho falou com seu sorriso doente e sem propósito. É bem onde estamos. Minha Clara sabe disso. Não tivemos filhos nem nada, mas sabemos como são as coisas.

      A jovem Catarina apanhou a mão de Leila e levou até a boca. Deu um beijo de sonho, ele não existiu, mas esteve lá. Esteve bem molhado na mão de Leila, aquele beijo.

      — Não tenha medo. Não há motivo. Garanto que não há motivo para que você tenha medo de coisa alguma. - Catarina falou e nesse momento parecia velha e acabada. Mais do que uma avó de noventa anos. Muitos anos mais.

      Leila encarou o marido e lembrou da promessa que havia pedido. - Mas se você for até lá, promete que vai retornar? - Quase repetiu o pedido. Não precisou fazer isso.        

      O olhar de Julio era fixo, fitava com calma o da esposa e não parecia temer coisa alguma. Não receava mais o que quer que fosse. Uma lágrima escorreu e molhou a face alva da mulher dentro do quarto escuro.

      — De que lado da encruzilhada estamos? Onde nós estamos, Julio? O que aconteceu conosco?

A resposta silenciosa fluiu através dos olhos, nenhuma palavra mais. Leila fitou a sua volta e, num átimo, num pequeno pedaço de tempo, percebeu que havia ali dentro daquele quarto, muito, muito mais do que seis pessoas.





 

Marcelo Santoro é leitor ávido desde tenra idade, aprendeu a amar literatura através dos livros presenteados pela irmã mais velha. Monteiro Lobato também foi um dos grandes culpados pelo vício incurável que a partir da adolescência já não o abandonou mais. Nesta fase, inicia-se na aventura de tentar, através do próprio punho, criar histórias capazes de impressionar as pessoas e, alguns anos mais tarde, uma máquina de escrever "Remington", presente da mãe, passa a ser companheira constante. Seguindo a ler, aprende a amar a literatura fantástica e de horror, bem como seus ícones. H.P. Lovecraft, Stephen King, e Edgard Alan Poe passam a freqüentar a cabeceira de sua cama regularmente e os contos e livros de Ray Bradbury são capazes de o hipnotizar por dias seguidos. Apesar de amar os grandes clássicos e literatura brasileira, foi no campo do escrito fantástico que achou seu caminho.

Continue...
terça-feira, 5 de novembro de 2013

Flores de Deus

0 comentários
 
Menino de oito anos sente-se incomodado em morar perto do antigo sobrado dos Marins porque os proprietários do imóvel foram tragicamente mortos num violento acidente de carro. E o incômodo passou a se tornar medo quando, por conta de um entupimento nos esgotos, a prefeitura precisou abrir toda a rua. Foi, então, que o garoto percebeu que aquela tubulação funcionaria como túneis de acesso entre as residências. Elenildo Pereira, em texto curto e simples, apresenta uma enigmática história sobre os medos que permeiam a imaginação fértil das crianças.


Autor: ELENILDO PEREIRA


Sentia-me incomodado em morar vizinho ao antigo sobrado dos Marins, principalmente por conhecer a história trágica da família que ali habitara. Voltavam de um feriado quando, num momento de infelicidade, o carro em que viajavam foi violentamente arrebatado da pista por um ônibus que fazia uma ultrapassagem proibida. Pai, mãe e dois filhos: ninguém escapou. Desde então, aquela casa permanecia vazia; dava um ar assustador à rua. O meu incômodo transformou-se em receio quando, por conta de um entupimento nos esgotos, a prefeitura precisou abrir toda a rua. Vendo aquela tubulação exposta, em frente a minha casa, atentei para algo que nunca me ocorrera: todas as casas da vizinhança estão, de certa forma, interligadas pelos tubos de esgoto. Para minha fértil imaginação de criança que mal completara 8 anos, tal fato apresentava-se como ameaçador. A tubulação funcionaria como túneis de acesso entre as residências. Meu Deus, minha casa tem ligação com o assustador sobrado dos Marins. E se alguma coisa resolver passar de lá para cá? Um simples ralo no banheiro representava uma ameaça latente. Sentia-me na iminência de um ataque, sabe-se lá do que, vindo dos subterrâneos da casa.

Certa noite, antes de dormir, pensando na tragédia dos Marins, perguntei a minha mãe:

— Mamãe, por que as pessoas morrem?

Ela respondeu prontamente:

— Porque já cumpriram sua missão no mundo. Deus as chama de volta para Seu lado.

Tendo dificuldades em aceitar respostas curtas e rápidas, voltei a indagar:

— E as crianças? Por que Deus dá tão pouco tempo para elas cumprirem sua missão?

Acredito ter herdado da minha mãe a imaginação fértil. Diante das minhas perguntas embaraçosas, ela sempre encontrava uma saída. Disse-me que Deus amava muito as crianças e achava que o céu ficava triste sem elas e, por isso, as levava para o lado Dele. Acrescentou que, no céu, existe um lugar especial reservado para as crianças: um imenso jardim onde o Criador cuida das crianças com o mesmo carinho e amor que um dedicado jardineiro cuida das flores. Deus considera as crianças flores do paraíso. Adormeci ouvindo essas palavras. Sonolento, levantei-me no meio da noite. Apesar do forte sono, a vontade de ir ao banheiro era maior. A bexiga estava tão cheia que me causava dores. De pé, em frente ao vaso sanitário, observava preocupado o ralo do banheiro. De repente, levei um grande susto ao ouvir um ruído estranho. Parecia barulho de água, semelhante ao som produzido quando pulamos numa piscina. Imaginei, instantaneamente, que aquele som vinha do chão, da temida tubulação do banheiro. Um frio estranho tomou conta do meu corpo quando lembrei que a única casa com piscina existente em minha rua era o sobrado dos Marins. Estava convencido de que o som tinha sua origem lá, no imóvel onde habitavam meus receios. Apesar de assustado, venceu-me a minha alma curiosa. Hesitante, aproximei-me um pouco mais do ralo, aguçando os ouvidos. Tive a impressão de ouvir risos de crianças; pareciam brincar divertidamente. Fiquei totalmente paralisado ao ouvir uma voz infantil cantarolar, entre sorrisos, pequenos versos de uma canção. Dominado pelo pavor, não sei exatamente o que aconteceu naquele momento. Não lembro sequer de ter voltado para a cama. Só sei que acordei nela com o nascer do sol. Meus lençóis estavam completamente encharcados. Fiz esforço para acreditar que tudo não passava de um sonho, mas parecia tão real. De súbito, os versos cantados por aquela voz infantil voltaram claramente à minha cabeça. Consegui rememorar, pasmado, a canção suave que dizia assim:


"não estou mais aqui

não sou mais eu

estou num jardim

sou um jasmim

regado pelas mãos de Deus

lá – lá – lá – lá – lá".



A partir desse dia, o simples ato de ir ao banheiro tornou-se um tormento. É verdade que não voltei a ouvir sons vindos da tubulação. Porém, meus costumeiros banhos demorados tornaram-se breves. Com o passar do tempo, consegui convencer-me de que tudo não passara de um sonho. A história de crianças serem flores, contada pela minha mãe, deveria ter me levado àquele pesadelo.

Tornei-me adulto. Por força do meu trabalho, já não via minha querida mãe há sete anos. Passei todo esse tempo fora de casa. Casei-me há exatos seis anos, idade que tem hoje meu filho Renato. Aproveitando um período de férias, volto a casa onde passei toda a minha infância. Estou realizando o sonho, por muitas vezes adiado, de rever minha querida mãe, apresentar-lhe minha esposa e dar-lhe a oportunidade de conhecer seu único neto. Foi um reencontro emocionante. Abraçamo-nos demoradamente e ficamos todos muito felizes. Na chegada, não pude deixar de observar a antiga casa dos Marins; continua abandonada e, depois de passados tantos anos, com um aspecto ainda mais desolador. Já não me incomoda como na infância; o que é perfeitamente compreensível. Pela minha ótica de adulto, aquele sobrado não passa de um imóvel entregue às baratas e ratos, um fantasma da infância há muito exorcizado. Porém, mesmo com minhas convicções realistas de adulto, não pude evitar a perplexidade diante de um fato ocorrido pela manhã. Ainda não me refiz do impacto e estou confuso até agora. Tínhamos acabado de acordar e nos reunimos à mesa para o café. O único ausente era o Renato. Minha mãe, a exemplo do que fazia comigo, gritou pelo neto.

— Renato, o café está esfriando. Venha logo, querido.

— Estou no banheiro, vovó. Já estou indo.

No mesmo momento, senti um suave perfume de jasmim invadir a sala. Aquele aroma transportou-me, subitamente, de volta ao passado. Alguns minutos depois, assisti, boquiaberto, meu filho entrar na sala cantando, com sua voz infantil, versos que um dia acreditei serem fruto da minha imaginação. Não sei se originados na casa dos Marins ou, quem sabe, vindos de conexões milhões de vezes mais distantes. O fato é que, depois de muitos anos, tornaram misteriosamente aos meus ouvidos, cantarolados pelo meu herdeiro, antigos versos que diziam:


"não estou mais aqui

não sou mais eu

estou num jardim

sou um jasmim

regado pelas mãos de Deus

lá – lá – lá – lá – lá".

 

 




Continue...

Para sempre Marte

1 comentários
 
 Homem empreende uma viagem ao planeta Marte. Durante o percurso, dentro de uma moderna, sofisticada e confortável espaçonave, ele se apaixona por uma das passageiras por quem acaba mantendo uma relação amorosa intensa. Mas o destino dos que se dirigem ao planeta vermelho, patrocinado por uma poderosa empresa, possui uma particularidade única, intransferível e definitiva. Maria Helena Bandeira apresenta um dos recursos do futuro para driblar os percalços naturais da humanidade.



autora : MARIA HELENA BANDEIRA


I


Acordo e olho para cima. Em vez das esperadas folhas da floresta amazônica, um teto liso, iluminado por uma luz esbranquiçada.

Por um momento fui tomado pela sensação angustiante de perda de identidade. Durante alguns segundos não soube quem era, onde estava, perdido numa bruma que foi, aos poucos, se diluindo, à medida que voltava a memória dos fatos recentes.

Não estava em minha casa em New New York com seus holopainéis amazônicos. Não há holopainéis aqui e isto é lógico. Apenas paredes e teto branco, um leito macio e a impessoalidade dos locais de passagem.

Jogo fora o cobertor climatizado e sento na cama. Também não há falsas janelas para criar a ilusão de estar ainda em solo firme. Nada aqui sugere as comodidades psicológicas da Terra. É como tem que ser, consideradas as circunstâncias.

A luz se acende sobre a porta e uma voz suave acaba de me despertar:

"Seu café da manhã, senhor."

       Praguejei mentalmente. Porque solicitei refeições ao toque? Agora, cada vez que colocar os pés na prancha metálica do room-service ao lado da cama, terei que pagar por coisas que não consumirei. Na verdade, descobri, espantado, que estava com fome. Dormira algum tempo, (consultei o mini-comp de pulso) exatamente oito horas, desde a chegada à nave e meu estômago, pela primeira vez nos últimos dias, dava sinais de vida.

"Entre." Destravei a porta.

Um jovem negro de excepcional beleza, com toda a certeza um andróide de última geração, entrou com a bandeja e colocou na mesa da saleta ao lado. Estava vestido como um oriental, quer dizer, a interpretação que a Companhia faz dos antigos trajes japoneses, com uma túnica dourada e preta, brilhante, algo soturna na combinação.

Estranha idéia eles têm sobre indumentária, decoração e serviços numa viagem destas... Enfim, nunca passara pela experiência antes, mas sabia que as coisas não iam ser fáceis, com qualquer moldura.

O escravo núbio cibernético me olhava com o olhar parado dos andróides de serviço. Esperava algum movimento de minha parte.

Levantei-me, sentei meu traseiro magro na cadeira confortável (sobre este item não havia o que reclamar - conforto era detalhe primordial nesta viagem) em frente à mesa.

Ele começou a virar as xícaras, retirar os acompanhamentos, colocou o leite, o café, passou manteiga e mel nas torradas, tudo na quantidade certa (para isto serviam, também, os intermináveis questionários pessoais que preenchera antes da viagem e que faziam parte do pacote da Companhia). Depois se inclinou à moda oriental e dirigiu-se para a porta.

Dar gorjetas a um andróide de serviço seria uma gafe e uma descortesia imperdoável. Minha mão, que já se dirigia imperceptivelmente a um bolso inexistente, parou no meio do caminho. Anos de convivência com os garçons humanos dos luxuosos drogars de New New York haviam me condicionado de tal maneira que me senti desconfortável, enquanto o elegante negro transpunha a porta do quarto.

Para meu espanto, a comida era excelente. As torradas exatamente como gosto, biscoitos, brioches, um pedaço de bolo de aipim (não esqueceram nada, os danados), o café e o leite na temperatura ideal.

Senti falta da música. Mas por pouco tempo. Logo os primeiros acordes da Sinfonia em Ré Menor de César Frank inundaram o quarto. Mal tive tempo de me recuperar da emoção, quando a mesma voz suave me advertiu, enquanto um holograma ia se formando com as palavras sobre um estrado em frente a mim:

"Cerimônias religiosas - Culto católico - Capela 1, plataforma S, setor LaranjaCultos anglicanos e derivados - Capelas 2 a 10, plataforma S - setor LaranjaCultos israelitas - Capela 11, plataforma S, setor Verde..."

A voz continuava a repetir intermináveis anúncios de cerimônias para todos os cultos colocados nos questionários pelos participantes. Tinha que admitir: a coisa toda era de uma eficiência e um detalhismo oriental.

Não entendi muito bem porque me informavam os horários de todos os outros cultos, uma vez que já me catalogara como católico apostólico romano, ainda que bem mais romano do que apostólico na vida que levava ultimamente. Talvez se preparassem para a hipótese de uma conversão tardia a um outro credo ou para a necessidade de se proteger em todas as frentes. Quanto mais deuses vindo em nosso auxílio melhor. Era uma colocação pragmática.

O minicomp informa, com minha voz eletrônica, de que são 20 para as 9, horário da Pegasus. Resolvo ir à Missa Espacial. Não tenho mais nada para fazer mesmo. Será uma experiência, no mínimo, única.

A esteira do corredor me leva até a plataforma S, setor Laranja e, finalmente, após um labirinto de corredores brancos, ornados com uma fosforescente linha alaranjada, sou deixado em frente à porta da Capela F, esculpida com motivos católicos. Um Cristo entalhado em madeira me olha com piedade. Ao menos assim me pareceu.

Um arrepio percorre meu corpo, empurro a porta e entro.A capela está bem cheia. Aqui há um holopainel no teto que se estende até o meio da parede, simulando um céu estrelado. O efeito é bastante convincente e uma tranqüilidade se apodera de mim, mesmo contra a vontade. Talvez seja também efeito da música, do coral beneditino (onde diabos - perdão meu Deus - arranjaram um coral beneditino?), do cheiro de incenso e do imenso altar de mármore branco, diante do qual um padre com paramentos roxos inicia o ofício da Santa Missa.

Ajoelho-me, rezo e as lágrimas começam a correr em minhas faces, pela primeira vez em muitos anos.

O efeito desejado deve ser este mesmo.

O resto da cerimônia transcorria de forma tranqüila e algo tediosa. Impaciente, comecei a observar as pessoas ao meu redor. Todos vestiam as roupas dadas pela Companhia para a viagem - o macacão negro com enfeites violeta - que nos fazia parecer membros de uma tripulação soturna com destino ignorado.

Minha atenção foi despertada pela luz brilhando sobre os cabelos louros de uma jovem sentada quase em frente a mim. Ela se virou ligeiramente e vi que já a conhecia da chegada à nave. Quando fizemos a checagem das roupas e objetos pessoais que seriam devolvidos no fim da viagem. Naquela ocasião ela pareceu extremamente nervosa, destacando-se da massa apática e triste dos outros passageiros.

Senti curiosidade pelo objetivo dela, coisa que não me acontecera com os outros companheiros de jornada. Não apenas porque era bonita - e era - num estilo severo, a pele clara como um modelo da antiguidade renascentista, os olhos sombreados por cílios tão espessos que não havia como definir sua cor. Em todos estes detalhes eu reparara no check-in, por isto a reconhecera tão facilmente. Ela me intrigava porque era diferente de nós. Sua postura, seus gestos nervosos, um ligeiro tique nas sobrancelhas, os dedos que tamborilavam no balcão.

Alguns outros também olharam para ela naquela ocasião, mas pareceram desagradados com sua atitude. Há um acordo tácito entre os passageiros e a tripulação no sentido de virarmos sombras. No sentido de escapar à tentação da individualidade. E aquela moça, com seu aparente desespero, nos incomodava, trazia de volta, com o eu desperto, um sentimento amortecido.

Desviei o olhar dos cabelos que balançavam suavemente. Pareceu-me ouvir soluços quase imperceptíveis e isto me irritou. Concentrei-me na voz suave e algo monótona do padre na homilia. Tudo que dizia eram banalidades, mas era o que precisávamos por enquanto.

Quando a missa acabou, num impulso que eu mesmo não sei explicar, dirijo-me à jovem que acaba de cruzar a porta entalhada:"Não sei se estou quebrando alguma etiqueta marciana, mas gostaria de conversar com você.

"Ela me olhou, espantada, como se voltasse de uma viagem a algum lugar longínquo e, com dificuldade, focalizou em mim um olhar atordoado:

"Pois não?"

Sua voz era gentil, com a gentileza indiferente das pessoas treinadas em lidar com o público.

"Gostaria de conversar com você... quer dizer... estou me sentindo meio sozinho... esta viagem, tudo que nos cerca... os motivos, os métodos, sei lá... acho que senti necessidade de falar com alguém. Desculpe... não sei se foi uma boa idéia... não quero atrapalhar... "

 

II

 

Fiquei ali parado, como um idiota, dividido entre a tentação de ficar, mesmo enfrentando a frieza de uma recusa e a vontade de fugir, correr para o meu quarto onde me sentiria outra vez explicado.

Mas ela sorriu, clareando o saguão sombrio com aquele simples gesto quase mecânico.

"Também me sinto só. É estranho tudo aqui. É minha primeira vez..."

Eu já suspeitava e respondi, também sorrindo:

"A minha também. A primeira vez é mais difícil."

Pessoas passavam por nós e pareciam nos olhar com desconfiança e censura, mas não me importava. Depois de muitos meses, neste momento tinha consciência de mim, ou melhor, consciência de ser alguém separado da dor e do desespero.

Caminhamos para o salão comunitário do andar. Como eu previa, estava vazio e poderia, talvez, fazer algo que já me parecia tão distante de mim que nem sabia se ainda seria capaz de realizar - conversar com outro ser humano, especialmente uma mulher.

Outra vez percebi que, finalmente, conseguira pensar nesta palavra sem sofrer.

Olhei para o distintivo brilhante que ela trazia no peito e que a identificava como passageira. Estava escrito: LARA (TERTIA NONUS - ALEXANDRÓPOLIS) Uma cria de Alexandrópolis! Que incrível coincidência! Fúlvia também fôra clonada lá. Eu não pertencia à linhagem dos clones, era um humano absoluto, meus pais biológicos preferiram a sorte. Foi minha herança por ter nascido de dois artistas famosos da cena holográfica de New New York. Excentricidade permitida às celebridades do showbiz. Não sei precisar até que ponto isto me tornou singular. Nunca me senti menos capaz do que os outros e, profissionalmente, minha diferença me ajudou a ser o mais criativo publicitário da UNIC. Estou aqui com meus próprios recursos, o que não parece ser o caso da maioria. Quase todos são sócios do PASEM (Para Sempre Marte), plano pago pelos empresários como forma de ter funcionários presos a si pelo resto da vida.

Lara me olhou espantada, pois eu estava quase rindo - uma heresia, consideradas as circunstâncias.

                                

                                  ********

 

Desembarco em Marte com Lara, atravessando os túneis envidraçados que permitiam ver o que cinquenta anos de colonização terrestre tinham feito pelo planeta vermelho. Havia uma vegetação luxuriante sob a semi-esfera, que quase não era percebida na claridade artificial da manhã. Nada da aridez desoladora que ainda existia em grande parte do planeta. Tudo parecia claro, perfeito, como um quadro campestre. Um funcionário nos indicou o Hotel na Semi-esfera 3 onde éramos aguardados nos aposentos selecionados previamente pela Companhia Marciana.

Seguimos de mãos dadas, com a intimidade que partilhávamos desde a nave. Amar Lara havia sido fácil ali, como seria em New New York. Éramos ambos romanos. Não havia porque fingir preconceitos. Silenciosamente agradeci a meus pais por ter nascido patrício e não servo. A vida dos clones de serviço era bem pior que a dos andróides. E ainda havia toda aquela questão da castidade que estava sendo discutida no Parlamento - clones de serviço podem ter vida sexual ativa? Tudo bobagens. Foram criados para servir e não reclamavam, porque esta demagogia em torno do assunto? É só uma questão de angariar mais votos para o Conselho. Eles mesmos não estão nem aí para os políticos. São dóceis e meigos como cordeiros. Como cordeiros... um arrepio me percorreu a espinha, justamente quando o andróide de serviço na portaria conferia na máquina nossas credenciais. Não era negro, mas de aparência oriental. Sorria protocolarmente e nos passou o cartão do quarto duplo que encomendamos.

Haveria uma certa ironia naquele sorriso?

Acho que não. Andróides não costumam ter sutilezas. A ironia é própria dos patrícios e dos clones superiores. Na verdade, nunca se sabe o que pensam os andróides. Novamente um arrepio me percorreu.

O hotel era luxuoso, mesmo para os padrões terrestres, embora austero, mantendo o dourado e o violeta da nave. Eu só queria entrar, tomar um banho aromatizado de vapor e amar Lara pela primeira vez em solo marciano. Ela olhou para mim e parecia estranha, distante. Eu também estava distante, eu também me sentia estranho. Mas não queria pensar no que nos aguardava.

 
*******

 

Lara me acorda antes da voz artificial:

Querido..."

Gostava de ouvi-la me chamar assim. Parecia tão anacrônico e tão longe da realidade que nos cercava...

"...Está na hora."

A realidade voltou, brutal, diante de mim. Levanto-me num pulo, evitando tocar na maldita prancha metálica. Não quero pagar por um café que nenhum de nós pretende tomar. Olho meu rosto no cristal reprodutor e amplio minha imagem até mostrar a menor imperfeição a ser corrigida pelo laser cosmético. Apesar de tudo minha aparência é razoável. Programara rosto sem barba para toda a viagem e não precisava me preocupar com este aspecto mesquinho que os andróides adoram cultivar. Não sei porquê, apreciam o ato de fazer a barba. Penso que o renascimento cotidiano dos pelos lhes dá uma ilusão de humanidade. Sei lá o que se passa por estas cabeças estranhas.

Lara sai do banheiro radiosa como sempre, um produto perfeito da engenharia genética.

Estou me sentindo amargo. É compreensível. Ela também parece triste e defendida. Abracei-a quase maquinalmente e entrei no banheiro para terminar de me arrumar.

Quando a voz inundou o quarto, já estávamos prontos para descer. Tomamos a esteira rolante e nos dirigimos ao saguão. Havia muita gente lá, todos em um silêncio quase assustador, organizados em fila, nos trajes preto e violeta da Companhia Marciana. Fomos identificados e nos dirigimos a nossos lugares no grupo.

Alguns iam para estágios inferiores. Eram os trabalhadores de categoria mais simples. Outros, a chamada classe média oriente-americana, ficaria nos estágios intermediários. Lara, como eu, fôra encaminhada ao nível superior. Espantei-me um pouco porque, embora romana e patrícia, não parecia pertencer à elite. E aquele era um luxo para poucos. Procurei disfarçar e nos dirigimos na esteira para o grande edifício da Partida, uma construção baixa e maciça. Bela e soturna como convinha. Não tinha os rebuscamentos de alguns exemplares da arquitetura marciana, apenas alguns vitrais coloridos, quebrando a monotonia dos cinzas.

O pavilhão destinado à elite tinha uma entrada separada, um arco perfeito de mármore negro onde a esteira mergulhava como na goela de um dragão.

Segurei a mão de Lara. Estava gelada. Eu também sentia um frio no estômago e suava como se não estivesse num ambiente perfeitamente climatizado.

Logo após o arco da entrada, entramos num grande corredor dourado, esculpido com motivos barrocos. Colonial, pensei. Lembrava ainda as aulas de Arquitetura da Antiguidade do Centro Integrado. Um período que me parecia tão longínquo como as próprias volutas das paredes. Um tanto opressivo, embora belíssimo. Não havia música neste trecho e agradeci por isto, nem sei bem porquê. A esteira percorreu lentamente o corredor e o brilho dourado se refletia em nós. Tinha a sensação de fazer parte de um grupo de estátuas de bronze. Ninguém fazia o menor movimento, a tensão era palpável como uma névoa triste em torno de nós.

Finalmente, atingimos o salão principal, recoberto até o teto de uma espécie de veludo negro.

Olhei para os outros. Umas vinte pessoas, no máximo. Todos calados como peixes. Entramos e nos sentamos nas confortáveis poltronas, dispostas em semi-círculo, diante do estrado negro e violeta.

Havia cerimônias individuais, mais caras, mas não me achava em condições de agüentar uma dor solitária. Acompanhado, de alguma forma, a coisa parecia menos terrível. Pedira apenas, como um favor especial, que fosse o primeiro. Seria atendido, claro. Para isto serviam conhecimentos e parentescos.

Meus nervos estavam tensos a ponto de se rasgar. O coração bateu acelerado quando as luzes se apagaram e a música foi iniciada. Não reconheci aquela melodia, tristíssima, que lembrava as canções árabes de séculos atrás. Deve ter sido feita especialmente para a cerimônia. Do alto surgiu uma luz suave, branca, quase fantasmagórica, que iluminou o estrado, e dele foi subindo, de forma quase irreal, a figura delicada daquela que fôra o centro de meus pensamentos nos últimos anos.

Estava vestida com uma túnica branca, leve, apertada por um cinto de metal com pedras preciosas. Os cabelos escuros, presos por uma rede finíssima de pérolas, brilhavam. Ela tinha a aparência luminosa de antes da doença, com os lindos olhos azuis abertos, porém vagos. Um meio sorriso entreabria seus lábios e o aspecto todo era de uma jovem mulher sonhadora. Parecia viva e não congelada como estava, além da parede de vidro, tão fina que era impossível ser detectada, que nos separava da câmara de criogenia. Um trabalho verdadeiramente profissional.

Esta encenação era necessária para que os parentes ricos, ou os funcionários das empresas, continuassem a pagar as prestações do dispendiosíssimo plano Para Sempre Marte, garantindo que seus amados permaneçam lá, congelados, no Planeta Vermelho, à espera de um possível despertar, quando a ciência tiver vencido as doenças e a morte.

Todos os associados têm direito a, pelo menos, uma viagem para rever os entes queridos.Começo a me sentir estranho. Os ouvidos zumbem. Mil abelhas furiosas disputam espaço dentro deles. Meu corpo parece estranhamente plácido, mas uma dor se insinua no centro do plexo solar e se irradia para o braço esquerdo, sorrateira, uma enguia gelada de agonia.

A música se torna mais intensa, triste, totalmente apropriada para o momento e, no meio da minha impossível dor, mais uma vez, tive que reconhecer a eficiência deles.

Isto pouco antes de cair, morto, no chão brilhante do Auditório Número Um. Agora estão me preparando para o congelamento. Sei de tudo e, no entanto, não estou lá. Meu cérebro preservado permanece aqui, junto de Flávia, no sofisticado Laboratório Marciano. Algum dia nos reencontraremos. Eu e o meu corpo. Não sei se será um bom dia.
Tudo é possível no futuro. Até a felicidade.



Continue...
segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O Triângulo de Eisntein

0 comentários
 
Uma dupla de cientistas participa de uma experiência sobre a capacidade física e mental de seres humanos suportarem viagens espaciais com velocidades graduais próximas à da luz. Encerrados numa nave espacial, eles são submetidos, inevitavelmente, às distorções relativísticas einsteinianas de tempo, e algo muito estranho ocorre durante o ponto alto da jornada. A narrativa simples e direta de Ataíde Tartari, sem abordagens complexas do tema, inspirada levemente em “Solaris”, resulta numa boa história de FC. Vale conferir


Autor: ATAÍDE TARTARI




        Os cronômetros tinham se divorciado há mais de um mês. Um minuto a bordo da nave era, agora, um dia inteiro na Terra. Logo acima dos dois cronômetros, o monitor da cabine mostrava o espaço visivelmente distorcido pela velocidade, a esta altura bastante próxima à da luz.

        Desviando os olhos do monitor, Áster olhou para o chão; depois se ajoelhou, procurando a foto que deixara cair ao cochilar. Enquanto engatinhava pela cabine, topou com as canelas de Esther.

        “É isso que você está procurando?”

        Ao dizer isso, ela colocou a foto entre a canela e seu nariz.

        “Obrigado.”

        “Não sei como você pode perder tempo com essa bobagem no momento mais crítico da missão.”

        Ele se ergueu, mas não olhou para Esther. Colocou a pequena tela flexível onde se via a foto com a face para baixo, na mesa ao lado. “Estou cumprindo minha função, não estou?”

        “Não de modo adequado.”

        “Qualquer modo é adequado”, ele retrucou, “para uma cobaia como eu. A função da cobaia é ser estudada. E nós estamos sendo estudados, não estamos? — ou ao menos vamos ser, quando a gravação do que está acontecendo aqui chegar aos nossos amigos lá na Terra.”

        “Pois é.” Ela suspirou. Estava obviamente furiosa, embora tentasse parecer calma. “E o que eles vão concluir? Que quando o espaço e o tempo distorcem, o macho regride à adolescência?”

        “Pode até ser.” Ele deu de ombros. “Seria um acréscimo interessante às equações de Einstein.”

        Esther deixou a cabine e Áster voltou à poltrona com a foto nas mãos. Foto que, a propósito, nada tinha a ver com sua adolescência. Era a imagem de um dia especial, há quinze anos, quando ele chegou à posição de professor titular na faculdade. Seu sorriso, naquela festa em sua homenagem, era legítimo. E a moça a seu lado, além do lindo sorriso, tinha um olhar de deliciosa cumplicidade sincronizado ao dele. Era Anya, sua aluna e, a partir daquele dia, sua amante.

 

 

        A opção de se unir as camas não era usada há mais de seis meses. Áster e Esther estavam dormindo separados, e com uma cortina no meio. Quando Áster saiu de sua cama, percebeu que Esther já tinha se levantado. E ao entrar no refeitório, viu que ela já terminava seu café.

        “Eu sei, eu sei”, ela disse. “Acordei antes do horário programado.”

        “Quem sou eu pra te censurar?”

        “É que eu estou muito excitada com essa fase relativística da viagem.         Quero ficar mais tempo no observatório.”

        “Tudo bem”, ele disse. “Eu vou seguir com meu roteiro de exercícios.”

        Depois do café, Áster pôs sua toalha em torno da nuca e foi para o deck de ginástica. Assim que entrou, ouviu o ruído de uma esteira ligada e franziu a testa. A única tripulante da nave, além dele, estava no observatório. A origem do ruído, no entanto, não era uma esteira com defeito, como ele pensou. Havia alguém correndo nela.

        “Bom dia, meu amor! Dormiu bem?”

        Ele arregalou os olhos: era Anya! “Como é que...?”

        “O quê?” O olhar de Anya dizia que ela também estava surpresa. Surpresa por ele estar surpreso.

        “Nada.” Ele sorriu. Não havia como não sorrir para Anya, para seu lindo rostinho que nada mudara em quinze anos. “Só estou tentando entender o que está acontecendo aqui”, ele disse. “Ou talvez aqui”, ele acrescentou apontando para a própria cabeça.

        Esther permaneceu no observatório, sem falar com Áster, até o horário do almoço. Estranhou ele não ter aparecido por lá a manhã toda. Agora, andando pelo corredor até o refeitório, ela ouviu vozes e risadas. Parou, tentando identificar o que ouvia. Uma das vozes era sem dúvida a de Áster; a outra era feminina, jovem, vulgar.

        Ao entrar, viu a jovem sentada ao lado de Áster, colocando um doce em sua boca.

        “O que é isso?” Ela parou na frente dos dois. “Em que canto da nave você estava escondida,...?”

        “Anya”, respondeu Áster.

        “Sei... aquela da foto.”

        “Que foto?” perguntou Anya com a entonação de uma adolescente em êxtase.

        “É uma em que você está sublime”, ele disse entre sorrisos. “Depois eu te mostro.”

        Esther subiu o tom de voz. “Primeiro você tem que explicar como conseguiu mantê-la escondida na nave esse tempo todo.”

        “Você está louca? Como é que eu ia escondê-la num habitáculo de trezentos metros quadrados? Isso deve ser um fenômeno ligado a essa distorção espaçotemporal que estamos sofrendo.”

        “Seja lá o que for, esta nave não foi preparada para sustentar três pessoas.”

        “A gente dá um jeito”, ele disse enquanto acariciava o queixo de Anya.

        Esther saiu do refeitório resmungando. “Eu não preciso tolerar isto!”

 

 

        Naquela primeira noite do reencontro com Anya, Áster ampliou sua cama juntando outra ao lado, colocou champanhe num balde de gelo sobre mesa de cabeceira e providenciou uns biscoitinhos que imitavam morangos. A cortina e a cama de Esther continuavam no mesmo ambiente, mas sobre isso ele nada podia fazer. Por sorte ela estava no observatório quando os gemidos de Anya ficaram mais altos.

        Eles bebiam a champanhe e comiam os morangos fake quando Esther passou por eles em direção a sua cama, sem dizer uma palavra.

        Anya deu um riso de desprezo. “Tem mulher que não se cuida mesmo. Prefere virar bruxa.”

        “Ela se orgulha disso. De não se importar com a aparência, quero dizer.”

        “E por que você escolheu ela?”

        “Eu não escolhi ninguém; eu fui escolhido entre vários voluntários. Como esta é uma viagem sem volta, a tripulação tinha que ser voluntária. Voluntária e insana!”

        Anya riu com ele antes de perguntar: “Quer dizer que você não pôde escolher quem viria com você?”

        “Não, claro que não.”

        “Mas eu sim!” disse Esther por detrás da cortina. Então ela deu a volta e ficou em frente à cama. “Além de voluntária, eu fazia parte da equipe que selecionou o outro voluntário.”

        “Sim, eu lembro disso”, disse Áster, “mas a escolha foi técnica, baseada em dados físicos e psicológicos. Além disso, uma mulher que se orgulha de sua racionalidade como você jamais faria uma escolha, digamos, pela cor dos meus olhos.”

        “Eu engano bem, não?” disse Esther em meio a um sorriso triste. “A verdade é que eu estava de olho nestes seus olhos há muito tempo. Eu torci os dados a seu favor — ou, melhor dizendo, a meu favor.”

        Áster engoliu em seco; Anya ficou em silêncio.

        “Tenham uma boa noite”, ela acrescentou, voltando ao lado solitário da cortina.

 

 

        Nos dois dias seguintes, a comunicação entre Esther e o casal ficou limitada ao mínimo. Ela levou sua cama ao observatório, onde passou a dormir. Áster suspeitava que ela estava trabalhando em algo além da observação de estrelas. Quando ela finalmente decidiu conversar com eles, ele viu que estava certo.

        Anya e Áster estavam terminando o jantar quando Esther entrou no refeitório. “Consegui encontrar a tese que estávamos procurando”, ela disse em tom de triunfo.

        “Eu nem sabia que eu estava procurando uma tese...”

        “Ora, foi você quem sugeriu um fenômeno vinculado à distorção espaçotemporal... Pois bem, veja o que encontrei:”

        Esther exibiu um texto na tela flexível que tinha em mãos

        “Eu não estou a fim de ler”, resmungou Áster. “Você não pode nos dizer do que se trata?”

        “Segundo esta tese aqui, da professora A.E. Delirandra da universidade de Cydonia, uma nave que atinge velocidades relativísticas pode sofrer uma fusão interdimensional. Mas a melhor parte”, disse Esther, “é que essa fusão é desfeita quando a nave volta à velocidade subrelativística”, ela concluiu com um largo sorriso.

        “Em outras palavras”, disse Anya, olhando para Áster, “ela arrumou uma desculpa pra me jogar pra fora da nave?”

        “Não sou eu quem vai te pôr pra fora, minha querida”, disse Esther, “é o próprio universo!”

        “Eu acho que nada vai te acontecer”, disse Áster. “Se as dimensões se fundem por causa da distorção — e se você realmente veio de outra dimensão —, isso não quer dizer que você vai ter que ir embora. A fusão serviu como uma passagem para que a gente se reencontrasse; não faz sentido você desaparecer só porque a passagem vai desaparecer.”

        “Essa sua analogia simplória não tem nada a ver com o que dizem as equações da professora Delirandra”, retrucou Esther. “Você vai desaparecer daqui, minha querida, e não há nada que este seu macho que regrediu à adolescência possa fazer.”

        Ao ouvir isso, Anya pegou a faca que estava na mesa e, urrando, se lançou sobre Esther. As duas caíram no chão, mas a faca, feita para não cortar pele humana, apenas arranhou a barriga de Esther. Anya então tentou estrangulá-la; Esther fez o mesmo. Áster, ao ver que Anya estava ficando mais pálida que sua adversária, se lançou sobre o pescoço de Esther.

        Quando Esther finalmente parou de lutar, ele se surpreendeu com aquela visão, com aquele corpo desfalecido em suas mãos. Sua única preocupação tinha sido a de se livrar daquele conflito.

 

 

        Sentados lado a lado no observatório, Áster e Anya olhavam para o espaço curvo onde as estrelas se agrupavam numa forma de túnel, um túnel avermelhado nas laterais e azulado no fim. A velocidade da nave já tinha começado a diminuir, mas os cronômetros ainda estavam bem desalinhados. Um minuto a bordo da nave era, agora, o mesmo que dezoito horas na Terra.

        “Estou com medo”, disse Anya.

        “Eu também.” Ele a abraçou. “Mas vamos ser otimistas: a velocidade já diminuiu e nada aconteceu.”

        “Eu tenho uma idéia: daqui por diante vamos nos amarrar com uma fita ou qualquer coisa assim. Nada vai conseguir separar a gente!”

        Ele concordou, mesmo sabendo que isso não deteria o universo, como dissera Esther em seu pior momento. Na manhã seguinte, ele teve certeza que estava só como nenhuma cobaia jamais estivera.




Continue...